Muitas aspas


Eu não sou contra adaptações de livros pro cinema. Sou mediadora de um clube que trata justamente desse tema, mas tem coisa que me tira do sério. Também não sou contra mudar tudo, fazer tipo uma fanfic, vide A Assombração da Casa da Colina da Shirley Jackson. O Mike Flanegan fez uma série que só leva os nomes das personagens de Jackson, o resto é todo diferente. E tá tudo bem. 

Esse novo O morro dos ventos uivantes já nasceu amaldiçoado. A começar que eu odeio os filmes dessa diretora. Bela Vingança é uma pataquada na qual ela mata a personagem principal para provar um ponto. Claro, já morre pouca mulher nesse mundo mesmo, vamos fazer disso um final "brilhante". Aí veio aquela outra palhaçada, Saltburn, uma fanfic de O talentoso Ripley, que tenta chocar e no final é só enfadonho. Sim, eu odeio os trabalhos dessa diretora. 

Aí veio essa adaptação nova e eu torci o nariz só de ver o marketing que foi feito. Os atores fanficando a relação deles e o slogan "a maior história de amor". Gente, sério, amor? O livro da Brontë é uma das coisas mais perfeitas existentes na literatura e amor é uma coisa que não existe lá. Tem gente insuportável, mau caráter, chata pra caralho, mas amor talvez só do Edgar pela filha. O resto é obsessão e bad vibe. 

Vamos falar do Heathcliff branco? Vamos. Na segunda página do livro ele é descrito como um cigano de pele escura. Esse fato é importante para a trama, pois ele é o outro, um intruso naquela casa. Não se sabe a origem dele, logo, não deve ser confiável. Se ele fosse branco, seria muito bem aceito. Heathcliff sofre racismo e isso molda seu caráter. Sem passar pano para as ações dele, mas sim, racismo e xenofobia estão presentes em sua vida. 

Como a Carol disse nesse vídeo, num mundo em que as taxas de feminicídio não param de subir, você pegar uma história de vingança e abuso e transformar em história de amor é no mínimo condenável. A Isabella, que no livro sobre todo tipo de violência vinda de Heathcliff, no filme é uma ninfomaníaca engraçadinha. Em determinada cena eu ouvi os jovens no cinema suspirando. Deu até um arrepio na espinha. 

"Ah Michelle, mas é ficção". Sim, caralho, eu sei, mas mesmo a ficção tem que ter um pouco de comprometimento com a realidade, ainda mais quando trata de assuntos tão delicados. Assuntos esses que a diretora simplesmente resolveu ignorar. A Nelly, única personagem que presta no livro, virou uma megera ciumenta. Joseph, o fanático religioso, virou um transudo jovem. 

Eu sou do tempo que saiu uma edição de O morro com um blurb na capa que dizia: "O livro preferido de Bela e Edward", na época de Crepúsculo. Fico bem preocupada com a falta de uma interpretação de texto mínima que seja. A diretora ainda escolheu colocar aspas no título, pra mostrar que foi uma versão dela. Sinceramente, isso é desrespeito com a obra e Emily deve estar se revirando no túmulo.

E se a gente for pensar apenas como um filme, sem lembrar que veio de um livro? É ruim e cafona. Os protagonistas têm o carisma de uma manga murcha. Aquele monte de vestido bonito e bela fotografia não serviram de nada. 

Enfim, essa merda me deixou irritada.